Nesse mundo de rede social temos acesso
a conteúdos dos mais diversos e a escritas das mais variadas, entre
elas escritas tidas como “erradas” que abrem brechas para outras
pessoas fazerem postagens de frases como “Era interessante até que
escreveu conserteza”, “A pessoa era linda até dizer menas” ou
então “trocou ‘mas’ por ‘mais’ e todo encanto se desfez”.
Isso me incomoda, de certo modo, e pretendo destrinchar aqui o porquê
disso.
Antes de tudo tá certo que uma escrita
bem-feita, um livro literário bem escrito, uma elaboração de
redação ou poema decente trazem uma sensação mais agradável ao
serem lidos. Lendo “O cortiço” de Aluízio de Azevedo, por
exemplo, as partes mais “calientes” do livro me atraem muito mais
o interesse do que aquela porcaria de “50 tons de cinza” da
inglesa Erika Leonard James que além de ser muito machista é pessimamente escrito, e as partes que
é pra “dar tesão” são mais broxantes do que aquelas clássicas
e cômicas técnicas de imaginar um cachorro atropelado para retardar
a ejaculação na hora do “vamo ver”. Mesmo levando em
consideração o fato de que o livro foi traduzido e que alguns dos
sentidos do que foi escrito inicialmente podem não ter a mesma
semântica da escrita original, a essência da ruindade permanece.
Então é evidente que o uso bem-feito
das palavras, as colocações de interjeições, figuras de
linguagens e demais recursos de uma língua tornam a leitura mais
agradável, porém isso são apenas técnicas e estilos de escrita
atribuídas há um outro contexto que não o da mera ortografia ou o
“erro” na colocação de algumas palavras. E “pego no pé” do
livro da britânica porque se é para escrever um livro nesse estilo
vamos escrever com decência e não produzir porcarias como 50 tons…
Agora me incomoda (e não é pouco o
incômodo) pessoas que formam uma ideia de toda uma vida de uma
pessoa em função da sua escrita ou da sua fala. Isso demonstra um
nível de esterilidade de pensamento brutal. Se ater apenas a escrita
de um indivíduo para descrevê-lo e ignorar seus pensamentos, seu
passado, sua percepção do cotidiano é de uma idiotice enorme! Esse
complexo academicista que temos faz com que obscureçamos um
conhecimento de vida de determinadas pessoas que muitas vezes é
muito maior do que os daqueles catedráticos engravatados em mesas de
discussão sobre a política macroeconômica da China.
Não quero aqui desqualificar um
conhecimento acadêmico que também tem importância fundamental pro
desenvolvimento da sociedade, longe de mim isso, até porque eu
também faço parte dessa academia, e se eu faço parte é porque
acredito que as formas de conhecimento que ela nos fornece também tem uma
função importante de nos conceder uma melhora na nossa qualidade de
vida.
Porém, eu não entendo o porque dessa
cisma com a norma culta que por si só é excludente. Sim, pois
certamente os pais de muitos que nesse momento estão lendo esse
texto não deve possuir nível superior, às vezes nem sequer o
fundamental. Sendo assim então lhes pergunto: Por causa disso vocês
considerariam seus pais uns burros? Seres destituídos de pensamentos?
Pessoas que pelo português “mal dizido” não merecem ser
ouvidas? ou pior: Vocês PERDERIAM O ENCANTO pelos seus pais se vissem
algum deles escrevendo “conserteza”?
Veja, não quero aqui fazer apelos
emocionais falando de família pra comover um ou outro, isso é só
pra que façamos uma análise sistêmica do que está sendo dito sem o
mínimo de reflexão. Todas essas pessoas que não escrevem de forma
condizente com a norma-padrão são as mesmas pessoas que sofrem e/ou
sofreram com a opressão dentro do ambiente de trabalho, que mora em
condições precárias em encostas de morro, que pega ônibus lotado
todo dia às 5 da manhã, que tem contas a pagar no fim do mês, que
tem que criar o filho de uma forma decente com um salário indecente,
que tem seu filho assassinado na porta de casa, que sofreu com o
descaso de políticas públicas e que por isso não teve a educação
que merecia tendo que se reportar aos subempregos, pois foi o que de
fato lhes restaram.
Quando falamos mal de quem escreve mal
estamos falando dessas pessoas e de tantas outras que ainda continuam
a aparecer diante das mesmas circunstâncias das gerações
anteriores. Esse ciclo ainda não cessou e não cessará enquanto não
for do interesses de forças maiores.
Não quero que pensem com isso que
disse, que quero endeusar o desconhecimento da norma culta da língua
de pessoas que não tiveram acesso a ela, pois maravilhoso seria se
tivéssemos um sistema de ensino decente, de políticos que se
importassem com um país que forneça qualidade de vida a população,
mas isso não ocorre, sendo assim, o que gostaria é que de fato essa
parcela grandiosa do país fosse respeitada com toda sua
peculiaridade no conhecimento e percepções do mundo.
Pessoas que se importam de forma tão
intensa em relação a escrita de outra pessoa pra mim é um pseudo
intelectual superficial. É gente que não analisa o outro de forma
profunda e que se apega a detalhes extremamente insignificantes
diante da grandeza da vida humana.
Portanto, se você ainda perde o
encanto com pessoas que escrevem “agente” quando deveria escrever
“a gente”, “mas” em vez de “mais” e “conserteza”
quando deveria ser “com certeza”, desculpe, mas agora sou eu que
posso ter perdido o encanto por você.

Nenhum comentário:
Postar um comentário