sábado, 19 de setembro de 2015

Ei peçoa, naum soul eu qui soul burru é vosse qui é vaziu

Nesse mundo de rede social temos acesso a conteúdos dos mais diversos e a escritas das mais variadas, entre elas escritas tidas como “erradas” que abrem brechas para outras pessoas fazerem postagens de frases como “Era interessante até que escreveu conserteza”, “A pessoa era linda até dizer menas” ou então “trocou ‘mas’ por ‘mais’ e todo encanto se desfez”. Isso me incomoda, de certo modo, e pretendo destrinchar aqui o porquê disso.
Antes de tudo tá certo que uma escrita bem-feita, um livro literário bem escrito, uma elaboração de redação ou poema decente trazem uma sensação mais agradável ao serem lidos. Lendo “O cortiço” de Aluízio de Azevedo, por exemplo, as partes mais “calientes” do livro me atraem muito mais o interesse do que aquela porcaria de “50 tons de cinza” da inglesa Erika Leonard James que  além de ser muito machista é pessimamente escrito, e as partes que é pra “dar tesão” são mais broxantes do que aquelas clássicas e cômicas técnicas de imaginar um cachorro atropelado para retardar a ejaculação na hora do “vamo ver”. Mesmo levando em consideração o fato de que o livro foi traduzido e que alguns dos sentidos do que foi escrito inicialmente podem não ter a mesma semântica da escrita original, a essência da ruindade permanece.
Então é evidente que o uso bem-feito das palavras, as colocações de interjeições, figuras de linguagens e demais recursos de uma língua tornam a leitura mais agradável, porém isso são apenas técnicas e estilos de escrita atribuídas há um outro contexto que não o da mera ortografia ou o “erro” na colocação de algumas palavras. E “pego no pé” do livro da britânica porque se é para escrever um livro nesse estilo vamos escrever com decência e não produzir porcarias como 50 tons…
Agora me incomoda (e não é pouco o incômodo) pessoas que formam uma ideia de toda uma vida de uma pessoa em função da sua escrita ou da sua fala. Isso demonstra um nível de esterilidade de pensamento brutal. Se ater apenas a escrita de um indivíduo para descrevê-lo e ignorar seus pensamentos, seu passado, sua percepção do cotidiano é de uma idiotice enorme! Esse complexo academicista que temos faz com que obscureçamos um conhecimento de vida de determinadas pessoas que muitas vezes é muito maior do que os daqueles catedráticos engravatados em mesas de discussão sobre a política macroeconômica da China.
Não quero aqui desqualificar um conhecimento acadêmico que também tem importância fundamental pro desenvolvimento da sociedade, longe de mim isso, até porque eu também faço parte dessa academia, e se eu faço parte é porque acredito que as formas de conhecimento que ela nos fornece também tem uma função importante de nos conceder uma melhora na nossa qualidade de vida.
Porém, eu não entendo o porque dessa cisma com a norma culta que por si só é excludente. Sim, pois certamente os pais de muitos que nesse momento estão lendo esse texto não deve possuir nível superior, às vezes nem sequer o fundamental. Sendo assim então lhes pergunto: Por causa disso vocês considerariam seus pais uns burros? Seres destituídos de pensamentos? Pessoas que pelo português “mal dizido” não merecem ser ouvidas? ou pior: Vocês PERDERIAM O ENCANTO pelos seus pais se vissem algum deles escrevendo “conserteza”?
Veja, não quero aqui fazer apelos emocionais falando de família pra comover um ou outro, isso é só pra que façamos uma análise sistêmica do que está sendo dito sem o mínimo de reflexão. Todas essas pessoas que não escrevem de forma condizente com a norma-padrão são as mesmas pessoas que sofrem e/ou sofreram com a opressão dentro do ambiente de trabalho, que mora em condições precárias em encostas de morro, que pega ônibus lotado todo dia às 5 da manhã, que tem contas a pagar no fim do mês, que tem que criar o filho de uma forma decente com um salário indecente, que tem seu filho assassinado na porta de casa, que sofreu com o descaso de políticas públicas e que por isso não teve a educação que merecia tendo que se reportar aos subempregos, pois foi o que de fato lhes restaram.
Quando falamos mal de quem escreve mal estamos falando dessas pessoas e de tantas outras que ainda continuam a aparecer diante das mesmas circunstâncias das gerações anteriores. Esse ciclo ainda não cessou e não cessará enquanto não for do interesses de forças maiores.
Não quero que pensem com isso que disse, que quero endeusar o desconhecimento da norma culta da língua de pessoas que não tiveram acesso a ela, pois maravilhoso seria se tivéssemos um sistema de ensino decente, de políticos que se importassem com um país que forneça qualidade de vida a população, mas isso não ocorre, sendo assim, o que gostaria é que de fato essa parcela grandiosa do país fosse respeitada com toda sua peculiaridade no conhecimento e percepções do mundo.
Pessoas que se importam de forma tão intensa em relação a escrita de outra pessoa pra mim é um pseudo intelectual superficial. É gente que não analisa o outro de forma profunda e que se apega a detalhes extremamente insignificantes diante da grandeza da vida humana.
Portanto, se você ainda perde o encanto com pessoas que escrevem “agente” quando deveria escrever “a gente”, “mas” em vez de “mais” e “conserteza” quando deveria ser “com certeza”, desculpe, mas agora sou eu que posso ter perdido o encanto por você.

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